Autor: Moyses Laredo, Perito de Engenharia Civil

É trabalhosa, porque é difícil para se chegar ao local dos peixes, o igapó são áreas alagadas permanentemente, com grandes extensões plana, que quando se unem com outras áreas de várzea, que estão às margens dos rios e que sofrem com a variação das enchentes, aumentam substancialmente suas extensões, mas é somente nessas épocas, nos demais dias do ano, não se alteram. As matas de igapó se caracterizam por vegetação baixa e uniforme nessa região, pobre em espécies vegetais, com árvores afastadas e numerosos epífitos (vegetações que sobrevivem usando os hospedeiros, suas raízes não tocam o solo). Nesses redutos, os peixes se refugiam, uns para se livrarem dos predadores, outros, para suas reproduções. São em grandes cardumes, se caracterizando, para os moradores que conhecem seus segredos, como um grande supermercado de abastecimento de peixes.

 

A pescaria no igapó, é trabalhosa demais, primeiro tem-se que transportar nos ombros os apetrechos, como canoa, remo, varas de taboca, e um detalhe importante, não esquecer de retirar as barbelas dos anzóis (a fisga). Cada um lixa os seus anzóis. Não usam a barbela nas pontas, por duas razões, uma é para soltar os peixes dentro da canoa mais rápido, outra, quando ocorre acidentes dos anzóis engatarem em alguma parte do corpo das pessoas, saem rápido. Já tiveram que interromper uma pescaria para socorrer um amigo que espetou a palma da mão, entre o polegar e o indicador, foi um sufoco retirar o anzol da mão dele por estar com a barbela, desse modo, sem a barbela, fica fácil liberar o acidentado.

 

Tudo é feito na força bruta, usa-se o muque pra tudo, segue-se caminhando pelos campos até chegar na região da mata de igapó, pincipalmente fora da época das cheias em junho, em que os rios estão longe. É preciso se equipar bem, alguns usam os repelentes naturais, fazem emplastos com as folhas amassadas do capim citronela, e passam no corpo, ou usam também erva de gatos, da mesma maneira, são substâncias naturais que não prejudicam os seres humanos. Os carapanãs são terríveis, as pessoas desprevenidas pagam um enorme preço, deixam alguns cc (cm³) de amostras de sangue para a choca dos seus futuros filhotinhos (só as fêmeas picam, os machos são polinizadores). Ao chegar deita-se a canoa n’água, os cuidados já na água, é com as formigas-defogo, o pessoal chama formiga Mossoró, onde grandes formigueiros foram pegas de surpresa durantes as enchentes e para não se dizimarem, usam a estratégia de formar imensas balsas a boiar, são conhecidas como “bolode-fogo” ficam à procura de terra firme, ou algo em que possa se segurar, se por acaso entrarem na canoa a correria é enorme, ninguém consegue se livrar delas sem antes pegar muitas ferroadas, outro perigo é esbarrar acidentalmente com os gigantes jacaré-açu adormecido por entre as folhagens, eles medem as vezes até cinco metros, um encontro desses é quase fatal para quem está na canoa, a força de sua calda é tão violenta que arrebenta a madeira e parte a canoa em dois facilmente.

 

Em seguida segue-se, por áreas rasas, desviando da “floresta” de mambeca, (também conhecido como canarana), que atrasam muito o deslizamento porque retém a canoa. Ao chegar por lá, se colhe uns feixes dessa vegetação para forrar o fundo da canoa, a fim de evitar que os pescados se debatam e façam barulhos, como dizem os mais conhecidos, no igapó a pescaria tem que ser silenciosa. Em seguida buscam-se as árvores de titorana ou de capitari, a que tiver na época, para colher as vagens maduras, de onde se extrai os pequenos frutos em formato de bolinhas, que servirão de iscas. A maioria dos peixes, principalmente os pacus, dão a maior preferência por elas, se alimentam dessa frutinha com exclusividade, ao se pegar nas mãos elas mancha os dedos dos pescadores de vermelho, portanto, ao serem lançadas na água, os peixes avançam sobre ela, dificilmente não se consegue, grandes quantidades deles, pacu, sardinha etc., a canoa vem carregada, depois, faz-se as enfiadas dos peixes (peixes preso por uma tira de jauari – uma palmeira) e o mesmo trabalho para transportar tudo de volta, mas as coisas são assim mesmo desde nascença, de modo que, não há como mudar mais nada, e acaba se tornando uma normalidade sem o que nada se consegue, todos se acostumam com a rotina de pescar nos igapós.

 

Ao chegar da pescaria, o pessoal da casa, preparava umas tartarugas iaçás, quelônios de água doce, para o almoço, também conhecidas como pitiús, que haviam sido capturadas numa praia de desova. O modo de preparo eram assadas no braseiro, do fogão de barro, na cozinha do lado de fora. O curioso é que, segundo os apreciadores da carne desse animal, eles têm que ser colocados, na grelha, com o casco virado para baixo, ainda vivos!… dizem que assim, o sangue deles se agita e os torna mais “saborosos”, de fato, é assim mesmo que preparam a “iguaria”. Já presenciei algumas vezes, matarem os quelônios dessa maneira. Eu tinha um amigo, que sempre frequentava sua casa, aos domingos, morava numa espécie de chácara, e lá, sua esposa sempre preparava comidas típicas do Amazonas, todos domingos havia alguma novidade gastronômica,  tambaqui no tucupi, paca assada de forno, caldeirada de piranha etc. Nesse dia em particular, estavam preparando iaçás. A coisa se dava dessa maneira, eles emborcavam os bichos vivos se debatendo na trempe do fogão, cabia direitinho, pela concavidade de seus cascos, em seguida ligavam o fogo brando. Os animais começavam a sentir o calor e espumavam pelos couros que ligavam os braços, pernas e pescoço, numa agitação desesperada, era muito difícil assistir aquilo, muita crueldade mesmo. Particularmente acho abominável esse procedimento e a forma de matar esses animais. Sempre recusei aceitar comê-los, se já não como normalmente qualquer espécie de “bicho de cascos”, que dirá quando mortos dessa maneira, mas, é a cultura regional, não há como combater, seria como riscar o rio com uma faca, nunca faria o menor efeito. Os iaçás depois de assados, são servidos à mesa numa bandeja grande de alumínio e a festança dá início, cada um se agarra com o seu, é aberto uma entrada na placa do peito, retira-se as partes intestinais que se encontram cozidas na própria banha do animal, joga-se sal, farinha e pronto, o prato está completo, o cabra se escora num canto e taca o dente.

 

Graças que haviam os peixinhos que pegamos, tinha pacu e sardinha das grandes, porque os pequenos se devolvem ao rio. Enquanto assavam os iaçás, os peixinhos estavam sendo “tratados” e colocados em outra grelha para assar também, como sou muito chegado a peixe, principalmente quando novinhos, recém pegados fresquinho, são de paladar incomparáveis!

 

Um momentinho, deixe eu lhes contar uma história de um grupo de turistas franceses que estavam fazendo parte de um passeio nas comunidades do Amazonas, e ouviram falar de uma senhora de nome Candinha, que tinha um pequeno restaurante nos fundos de sua casa onde preparava peixes no vinho. Como os franceses comem tudo acompanhado de uma taça de vinho, ficaram curiosos, combinaram que queriam comer esse peixe no vinho, quiseram saber onde morava essa senhora, foram a procura do endereço de seu restaurante. Acabaram topando na porta do seu barraco, bateram palmas, ela veio atender, ao chegar foram logo dizendo para a dona Candinha, uma senhora já de certa idade dos cabelos brancos amarrados tipo rabo-de-cavalo, que tinham ouvido falar que ela preparava muito bem peixes no vinho. A senhora até se espantou com aquele pessoal louro de olhos claros, usando macaquinho de brim, com sandalinhas de dedo, cada um carregando uma enorme mochila nas costas, os quais ela já os tinha vistos e apelidados de “caracóis” porque andam com suas “casas” nas costas, ali todo mundo tinha apelidos, ninguém escapa de ganhar o seu. Fazendo mais um pequeno parêntese dentro do parêntese, me contaram de um promotor que havia chegado para ocupar a comarca local, enquanto desembarcava do motor de linha, e estavam descarregando suas bagagens, o seu auxiliar disse-lhe para tomar cuidado porque o pessoal da terrinha gostava muito de colocar apelidos nas pessoas, ele esboçou um sorriso e se adiantou dizendo que já tinha passado por duas comunidade e nunca tinha sido apelidado de nada. Enquanto isso, o carregador, que estava ao seu lado, arrumando suas bagagens, atendeu uma ligação no celular, alguém lhe perguntou por que estava demorando muito, ele prontamente respondeu alto que deu pra todo mundo escutar. – “Estou carregando a bagagem do “mão-de mangarataia” (gengibre). Pronto! O promotor acabava de ganhar um apelido que o acompanharia por toda sua estada naquele município. Ele tinha um defeito físico numa das mãos, era encarquilhada, parecia bem com uma raiz de gengibre.

 

A senhora prontamente acomodou a turma no banquinho corrido do quintal da casa dela, em meio as galinhas e porcos que criava, e disse-lhes que aguardassem que logo serviria, peixe é bom porque cozinha rápido. Depois de alguns minutinhos, chegou uma caldeirada numa panela de barro que fumaçava demais, também que cheirava longe, o pessoal com aquela fome europeia pegou a concha mas notou que o caldo era muito branco, nem o odor característico que o vinho possuía, era de peixe mesmo, mas, poderia ser vinho branco, disseram uns para os outros, quando todos se serviram veio a surpresa, ao provarem não tinha gosto de vinho coisa nenhuma, nada mesmo se parecia com o paladar do vinho seco, ficaram espantados, chamaram a mulher e a questionaram, – “Cadê o vinho senhora, não sentimos gosto não!” Ela surpresa, perguntou, – “Mas que diacho de vinho vocês estão falando?” – “A senhora não é conhecida por preparar peixe no vinho?” – “Ah! Não meus filhos, os peixes é que são “novinhos” foram pegados agora de manhãzinha”.

 

Voltando aos meus peixinhos assados, me espantei com o tamanho dos pacus, não cabiam no prato de tão grandes, me atraquei com os meus com farinha do Uarini e nem cachorro comeu, porque desci a lenha neles. Na mesa havia também umas nambus (inhambu-galinha) assadas, aves de uns, meio quilos. Nas maiores cheias dos rios amazônicos, são capturadas em grande número, quando expulsas pela enchente, tentam cruzar voando os largos e rios, caindo n’água exaustas próximo às margens, suas autonomia de voos não é muita, e assim, são capturadas facilmente, e para nossa sorte, elas foram convidadas a participar alegremente do nosso almoço, esse dia deu tudo certo, saiu todo mundo mais do que satisfeito com a pescaria e caçada.