*O Divino semeador saiu para semear. Semeou com esperançosa largueza; semeou a Palavra da Vida, deu-se a si mesmo. O semeador, Palavra e vida-doada do Pai, arou a terra e realizou grande semeadura. Nos brotos das sementes que morreram para germinar os novos frutos da vida, enxertou a Vida abundante e assim a semente desapareceu e apareceu novamente, ressurgida no fruto gerado. Os campos estão dourados. Chegou o tempo da colheita. Chegou o dia de Pentecostes. Chegamos ao final das sete semanas pascais.

A solenidade de hoje encerra um grande abraço entre o Primeiro e o Segundo Testamentos. No Primeiro Testamento está a origem da festa de Pentecostes, festivamente marcada pelas sete semanas de celebração da colheita dos frutos da terra. Tratava-se de uma festa alegre e solene (Dt 16,11), dedicada exclusivamente a Deus (Dt 16,10). Enquanto a Páscoa judaica caracterizava-se por sua reunião familiar, a festa das Colheitas ou das Semanas era uma celebração de todo povo trabalhador com suas famílias, amigos e os estrangeiros não eram esquecidos (Lv 23,22). Ninguém poderia trabalhar naqueles dias (Lv 23,21). O Segundo Testamento, o da nova e eterna Aliança, selam as sete semanas que sucedem os acontecimentos pascais da morte-ressurreição de Jesus Cristo. Assim como para o povo judeu, também para o povo cristão é um dia de festiva e solene alegria, porque Pentecostes tornou-se a celebração da vinda do Espírito Santo, é a festa de Deus no meio de nós.

A comunidade é o primeiro fruto da ação do Espírito Santo. A Igreja nascente, origem de todos nós, é a imagem do novo Israel, onde o Espírito Santo é o vínculo da comunhão entre as discípulas e os discípulos da comunidade do Reino.

A primeira leitura de At 2,1-11 recorda-nos que o lugar onde estavam reunidos os discípulos foi tomado por uma forte ventania e línguas de fogo pousaram sobre cada um deles. São imagens da manifestação do Espírito Santo de Deus. É o Espírito que nos congrega e não nos deixa dispersar, pois o Bom Pastor já nos chamou e conduziu-nos para junto de si, no aprisco. É o Espírito que mantém viva a memória da Páscoa de Jesus, e invocado sob o pão e o vinho apresentados no altar, os santifica em Corpo e Sangue do Cordeiro que tira o pecado do mundo. Na primeira carta aos Coríntios 12,3s, Paulo descreve a finalidade dos carismas na Igreja, com origem no Espírito, que nos livra do mal da divisão, da inveja e das competições. Na multiplicidade de dons, na diversidade de serviços em vista do bem de todos, atua um único e mesmo Espírito. Tudo deve visar o bem da comunidade. Entre nós há um grande perigo: por vezes somos surpreendidos por pessoas que na comunidade sempre se dispõem, mas com a condição de impor-se aos demais. A Igreja é um corpo, dinâmico e diverso. Na Igreja ninguém crê sozinho. A liturgia batismal nos insere na comunidade daqueles que foram banhados nas águas e no Espírito, e recebemos a vida nova de Cristo e seus bens futuros, administrados mediante a pergunta ritual: “que pedes à Igreja de Deus? A fé. E que te dá a fé? A vida eterna”. É o Espírito quem nos dá acesso aos dons pascais. Não há como dizer – Jesus Cristo é o Senhor a não ser pelo Espírito Santo. No Salmo 103 o orante eleva a nossa voz a bendizer as maravilhosas obras de Deus, que renova a face da terra e nos enche de alegria verdadeira. João, no Evangelho de hoje, nos narra o envio do Espírito Santo, sopro de Deus, que tira o medo, devolve a paz e faz de nós uma comunidade de reconciliados. Só é pleno do Espírito quem sabe perdoar.

Pentecostes é a festa da Igreja. Pentecostes é a festa do Divino. Permitam-me partilhar com vocês a experiência pessoal, marcada fortemente por esta festa eclesial, desde a perspectiva do povo ribeirinho, do interior. Há 21 anos participava de minha primeira festa do Divino, na cidade de Uarini. A solenidade do dia é precedida por uma vigília, quando os responsáveis da festa daquele ano percorrem as ruas, bem de madruga, entre rezas e cantorias ao Divino. Lembro-me, vivamente, de uma jovem que tinha em seus ombros um pano branco que lhe cobria os braços também, trazendo uma coroa com a imagem de uma pomba, simbolizando o Divino Espírito Santo. Ao bater com insistência à porta de um dos devotos, ecoava lá de dentro uma voz que perguntava: o que está acontecendo? A jovem respondia: viemos acordar os irmãos que estão dormindo! Anos mais tarde, já era diácono em Alvarães, uma grande festa também é preparada para esperar o dia do Divino. Marcou-me profundamente o entardecer daquele dia, quando os devotos confeccionavam barquinhos de papel, com uma pequenina vela, que iam sendo soltos desde o lago da cidade, desembocando no rio Solimões. Eram muitíssimos, incontáveis. A boca da noite (anoitecer) ia chegando e sendo aclarada pelas luzes dos barquinhos que desciam o rio. Numa outra ocasião, estava eu com Dom Sergio fazendo visita pastoral, quando nos deparamos com uma canoa em pleno rio, cheia de gente. Era um dia de novenário do Divino. Fogos e bandeiras brancas e vermelhas agitadas ao vento. Mais tarde, porém, soubemos que a notícia corrente era que o bispo queria tomar-lhes o Divino. Como não nos comunicamos com eles, descobrimos que a razão era na verdade uma fuga, para que o Divino não lhes fosse tomado. De onde surgiu aquela história, até hoje procuro resposta. Por fim, como não recordar de um elemento importante, diria até sacramental para o povo do interior: não existe festa do santo sem Mastro! Uma árvore grande é retirada e ornada com frutas e frutos da terra: banana, macaxeira, ingá, coco, entre outros e lá na ponta a bandeira do Divino. Durante o novenário não é permitido tirar os frutos, apenas no final da tarde do dia da festa, quando o mastro é derrubado, à machadada. Este é um momento muito esperado. O povo ao redor, à espera de poder correr e tomar os frutos do mastro. Aquele que pega a bandeira, é chamado de juiz do mastro e com sua família torna-se responsável pelos preparativos da festa do ano seguinte, e deverão oferecer na abertura da festa biscoito de beju com café, além de prepararem novo mastro. Como não associar esta devoção popular do mastro às festas da Colheita, e à alegria da memória da Aliança!

Por fim, Pentecostes é a festa da memória. Pentecostes é missão! Não podia terminar esta homilia sem dizer uma palavra para nosso querido Dom Sergio Castriani, que hoje, 31 de maio, completa 66 anos de idade. A vida de Dom Sergio, desde menino, teve um encontro muito forte com esta festa de hoje, pois quando ele disse que seria padre, entrou para a Congregação do Espírito Santo, cuja finalidade é a de preparar padres para partirem em missão. São 41 anos de padre, 21 anos de bispo, dedicados ao serviço da Igreja: iniciou sua caminhada de padre em Feijó, no Acre; depois em São Paulo, e daí foi servir a Congregação em Roma, como conselheiro geral. Em 1998 foi chamado pelo papa São João Paulo II para ser bispo da Prelazia de Tefé e 14 anos depois, em 2013, o Papa Bento XVI o chama para ser Arcebispo de Manaus. Em 27 de novembro 2019 o Papa Francisco aceitou sua renúncia ao governo da arquidiocese, e tornou-se emérito, mas não desocupado.  Entre seu serviço, continua semanalmente conversando com a cidade, por meio de seus artigos, além de viver uma vida de muita e intensa oração, marcando as horas do dia com a reza do breviário, tornando-se um intercessor pelas necessidades do povo e da Igreja. Ao senhor, Dom Sergio, desejamos muita alegria, somos agradecidos por nos ajudar a perceber o grande valor das pequenas coisas: encontrar-se com as pessoas e dar de seu tempo a elas, acolher os pobres e ouvir seus lamentos e por nos ajudar mesmo na fragilidade do corpo a dar cumprimento ao mandamento do amor! Pedimos suas incessantes orações também em nosso favor.

Quanta realidade bonita suscita esta solenidade de hoje. Pois bem, estamos concluindo as festas pascais. Jesus ressuscitado é o fundamento único de nossa fé, é o que nos recorda o Divino Espírito. O Espírito é Pai dos pobres, é consolo e alívio que acalma; na aflição é remanso, na escuridão da vida é luz bendita! Vivemos juntos uma páscoa diferente de todas as outras. Nossos corações ainda se inquietam com o mal da pandemia que nos acerca. Mas não estamos sós. O Divino está conosco, todos os dias! Como os primeiros, queremos também declarar: creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, Ele que falou pelos profetas! Hoje é dia de alegria, pois trazemos nossos paneiros cheios dos frutos do Espírito.

 

*Pe. Cândido Cocaveli